Books-Index

Livros

O meu registo pessoal de leitura e críticas de livros com ratings e etiquetada para fácil descoberta.

2026

Vinte e Zinco

by Mia Couto
7/10

Escrito para assinalar o 25º aniversário da Revolução dos Cravos, Vinte e Zinco é um romance breve que relata o quotidiano de uma família numa pequena cidade Moçambicana na véspera do 25 de Abril de 1974.

Tendo tido familiares próximos, como o meu pai, mãe, avós e tios, que viveram em Moçambique e tendo celebrado recentemente os 50 anos do 25 de Abril, foi uma obra que gerou bastante curiosidade.

A história entrelaça as vozes de colonizadores e colonizados, enquanto a notícia da revolução vai chegando devagar a um mundo ainda suspenso no tempo colonial.

O que torna o romance notável é a sua recusa em celebrar ou condenar, debatendo sempre a questão de pertença e identidade das suas diferentes personagens, no fundo eram todos prisioneiros de um regime distante.

A libertação não chega como triunfo, mas como perplexidade, com a ausência súbita das regras e ajustes de contas pessoais.

Uma Cidade em Marte: Podemos Colonizar o Espaço, Devemos Colonizar o Espaço, e Pensámos Realmente Nisto?

by Kelly Weinersmith, Zach Weinersmith
8/10

Os Weinersmith — Kelly, bióloga, e Zach, cartoonista — passaram anos a investigar a ciência, biologia, reprodução, ecologia, direito, geopolítica, sociologia e economia da colonização espacial, acabando por se tornarem profundamente céticos em relação ao projeto.

Dos efeitos fisiológicos das viagens espaciais de longa duração, à ausência de investigação em biologia reprodutiva no espaço, ao vazio jurídico que rege territórios fora da Terra, passando pelos tratados internacionais existentes e pela análise da autodeterminação, integridade territorial e os obstáculos geopolíticos que os assentamentos permanentes teriam de superar, à utupia de escapar guerra, autocracias, ou alterações climáticas.

Para todos os aficionados da “colonização de Marte”, este livro é um balde de água fria, expondo todas as lacunas de conhecimento e preocupações que precisam de ser resolvidas antes de tal empreendimento avançar — a tal ponto que, a meio do livro, é sugerido focar a atenção numa colónia lunar e, no final, os autores apresentam um plano bastante interessante sobre como alocariam a investigação e o investimento financeiro atual.

Curiosamente, há poucos dias Elon Musk alterou o objetivo da SpaceX da ter uma base em Marte para uma na Lua, o que vai ao encontro do prognóstico deste livro.

Divertido, meticulosamente investigado e um contrapeso necessário ao romantismo espacial do Vale do Silício.

Vendedor do Royal Society Trivedi, Science Book Prize 2024

2025

Canção do Profeta

by Paul Lynch
8/10

Vencedor do Prémio Booker de 2023, este romance distópico acompanha uma mãe de Dublin a tentar salvar a sua família enquanto a Irlanda descende ao totalitarismo.

Há ecos de “O Triunfo dos Porcos” e “1984” de Orwell e captura uma paisagem arrepiante de turbulência política que ressoa profundamente com o clima sociopolítico de hoje, especialmente no contexto do segundo mandato da administração Trump e eventos recentes em Minnesota.

A escrita estilística de Lynch não tem quebras de parágrafo e diálogo sem aspas, o que me recordou o Prémio Nobel Português José Saramago.

Um manifesto literário brilhante e assombroso sobre uma sociedade democrática a cair presa do totalitarismo autocrático.

Patos: Dois Anos nas Areias Petrolíferas

by Kate Beaton
8/10

Uma banda desenhada autobiográfica, no estilo de Guy Delisle, sobre o tempo que Beaton passou a trabalhar nas areias petrolíferas de Alberta (Canadá) para pagar a dívida universitária. Este é um livro sobre assédio sexual e misoginia. Sobre mulheres a trabalhar num mundo de homens.

Uma leitura OBRIGATÓRIA para todos, especialmente homens.

Com o nome de um desastre onde centenas de patos morreram em lagoas de resíduos tóxicos, “o livro traça paralelos devastadores entre a degradação ambiental e humana”.

Também proporciona uma janela para os desequilíbrios da economia canadiana e um dos seus setores mais lucrativos.

Barack Obama nomeou-o como um dos seus favoritos de 2022.

Pyongyang: Uma Viagem à Coreia do Norte

by Guy Delisle
7/10

Recomendado por um querido amigo (Canadiano) meu, esta é uma banda desenhada que documenta os dois meses do autor, Guy Delisle, em Pyongyang enquanto trabalhava para uma empresa de animação francesa.

Decidi encomendar uma cópia em segunda mão depois de ver o preço entre £2-£3, lendo-a pela segunda vez.

Delisle é um mestre em capturar a interação surreal com os seus cidadãos norte-coreanos, para além da sua burocracia, propaganda e realidade rigidamente controlada através do humor e sarcasmo. Uma rara fotografia da nação mais isolada do mundo.

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade

by Yuval Noah Harari
9/10

Esta é uma narrativa revolucionária da criação e evolução da humanidade que se tornou um fenómeno global.

Harari argumenta que a ascensão do Homo Sapiens ao domínio resultou da nossa capacidade de criar construções fictícias e como estas moldam as sociedades humanas, focando-se em três elementos-chave: religião, nações e dinheiro.

A sua afirmação provocadora de que a Revolução Agrícola, a transição da Caça e Recolha para a Agricultura, foi durante um breve período um obstáculo doloroso ao nosso pensamento convencional. Ele também enfatiza o papel crítico da narração de histórias e da partilha de narrativas na evolução da nossa espécie.

Um livro bem escrito e envolvente que provoca reflexão sobre a evolução do Homo Sapiens.

Orbital

by Samantha Harvey
7/10

Vencedor do Prémio Booker de 2024, este romance acompanha seis astronautas ao longo de 24 horas na Estação Espacial Internacional, durante 16 órbitas, centrando-se na tempestade devastadora em evolução nas Filipinas, focando nas relações dos Astronautas e Cosmonautas a bordo da ISS e das suas famílias na Terra.

Com pouco mais de 120 páginas, sugerindo que o romance pode ser lido rapidamente, na verdade requer uma consideração cuidadosa, tornando-se numa experiência meditativa profunda, destacando o quão frágil é o nosso planeta e as nossas conexões humanas.

Até ao Fim dos Tempos

by Brian Greene
9/10

Divulgação total: sou fã do Brian Greene. Divulgação adicional: sou apaixonado por espaço, astronomia e física.

Brian Greene usa o Empire State Building como uma metáfora vívida para ilustrar a passagem do tempo e a potencial evolução do universo.

Ao atingirmos o pináculo do edifício, este reflete o destino final do universo, seja entropia, colapso ou renascimento, desafiando os leitores a considerar o lugar da humanidade (ou a ausência dele) nestes cenários futuros.

E sim… a segunda lei da Termodinâmica é um lembrete recorrente de um universo governado pela entropia.

2024

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

by José Saramago
9/10

Publicado em 1991, esta é uma das obra-primas de Saramago - escrito no seu estilo característico (sem quebras de parágrafo, diálogo sem aspas), a obra é uma reimaginação profundamente filosófica e provocadora da vida de Cristo, retratando Jesus como uma personagem humanizada e imperfeita com paixões e dúvidas.

O romance mergulha em questões teológicas profundas: o problema do mal, a natureza de um Deus retratado como ávido de poder e indiferente ao sofrimento humano.

Gerou imensa controvérsia, incluindo a condenação do Vaticano e o bloqueio do governo português à sua nomeação para o Prémio Literário Europeu, levando Saramago a deixar Portugal.

Leitura essencial para quem lida com questões de fé, moralidade e justiça divina.

D. Manuel II

by João Miguel Almeida
8/10

Vencedor do Prémio Grémio Literário 2022, esta biografia explora a vida do último rei de Portugal, D. Manuel II, cujo reinado foi marcado pela tragédia desde o seu início.

Aos 18 anos, motivado pelo regicídio, seria lançado para o trono durante um dos períodos mais turbulentos de Portugal, onde reinaria apenas por dois anos antes de a república ser proclamada em 1910.

A biografia ilumina não apenas a história pessoal de Manuel, mas também os dias finais da monarquia portuguesa e as forças sociopolíticas que levaram à sua queda.

Zero to One: Notas sobre Startups, ou Como Construir o Futuro

by Peter Thiel, Blake Masters
7/10

Um clássico moderno que o obriga a melhorar o seu pensamento sobre startups, negócios e o futuro, baseado na lendária aula CS183 de Thiel na Universidade de Stanford.

O conceito central é poderoso: progresso de “zero para um” (criar algo totalmente novo) em vez de “um para n” (melhoria incremental).

Thiel apresenta o argumento provocador e contrário à corrente dominante a favor do monopólio em detrimento da concorrência, argumentando que a concorrência destrói os lucros, enquanto os monopólios podem dar-se ao luxo de pensar a longo prazo e inovar.

Tudo começa com o desafio contrário à corrente dominante: “Qual a verdade importante com a qual muito poucas pessoas concordam?”

Voz Própria: Jorge Ginja e Mário Viegas - Poesia, Resistência e Liberdade

by Jorge Ginja, Mário Viegas
6/10

Uma cápsula do tempo notável contendo gravações inéditas do lendário ator português Mário Viegas, feitas por Jorge Ginja em 1969 quando Viegas tinha apenas 21 anos.

As gravações foram feitas quando Ginja, prestes a ir para a guerra, pediu para levar a voz de Viegas a recitar poesia que queria levar consigo.

O livro reúne 49 textos de diferentes autores incluindo Alexandre O’Neill, José Carlos Ary dos Santos e Manuel Alegre. Cada texto apresenta um código QR para aceder às recitações de Viegas a partir do telemóvel.

Esteiros

by Soeiro Pereira Gomes
9/10

Um dos textos fundadores do neorrealismo português, publicado em 1941, tendo sido censurada pelo regime do Estado Novo, é uma obra-prima de crítica social.

O romance conta a história dura de rapazes de classe baixa que, devido ao seu estatuto social, são forçados a trabalhar numa pequena fábrica de tijolos em vez de estudar.

Dedicado aos “Filhos dos homens que nunca foram criança”, é uma crítica devastadora as condições sociais da era do Estado Novo e das suas inúmeras desigualdades.

Amor Estragado

by Ana Bárbara Pedrosa
8/10

Um romance perturbador e necessário que explora a violência doméstica pela perspetiva arrepiante do agressor que justifica e legitima os seus atos.

A escrita de Pedrosa é coloquial, simples e devastadoramente direta, atingindo como um murro no estômago.

Leitura intensa, desconfortável e necessária que afirma Ana Bárbara Pedrosa como um caso sério na literatura portuguesa contemporânea.

Conquistadores: Como Portugal Forjou o Primeiro Império Global

by Roger Crowley
7/10

Um livro recomendado pela minha irmã, é uma crónica fascinante da trajetória violenta de Portugal, de uma pequena nação a uma potência europeia, dominando o comércio das especiarias e construindo a primeira economia global.

Crowley narra com mestria os primeiros 30 anos da navegação portuguesa no Oceano Índico (início do século XVI), desde a descoberta da rota marítima para a Índia por Vasco da Gama até à morte de Afonso de Albuquerque.

O livro é uma análise minuciosa da bravura, curiosidade, crueldade e ganância portuguesas, sem se esquivar à violência horrível que caracterizou a conquista imperial portuguesa sobre os governantes muçulmanos.