Presidenciais 2026: uma reflexão sobre valores e princípios

Presidenciais 2026: uma reflexão sobre valores e princípios

Uma reflexão sobre os valores e princípios que orientam a minha escolha na segunda volta das eleições presidenciais portuguesas de 2026.

Presidenciais 2026: uma reflexão sobre valores e princípios

No dia 8 de Fevereiro, irei deslocar-me a Manchester para votar na segunda volta das Presidenciais de 2026.

Com o contexto social, económico e político português e onde este se insere no enquadramento internacional tive a necessidade de refletir sobre os valores e princípios que devem orientar a minha escolha enquanto cidadão. Mais do que escolher um nome, estarei a escolher alguém que melhor defenda os meus princípios de sociedade, de democracia pluralista e liberal.

Não que seja uma tarefa particularmente difícil, muito pelo contrário, mas a reflexão é necessária para expor não a sua complexidade mas antes a sua urgência e acima de tudo a minha consciência moral.

O despertar da consciência

“Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.”
“Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.”
“Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.”
“Foi então que eles vieram me buscar, e já não havia mais ninguém para me defender.”

de Martin Niemöller

“Primeiro eles vieram buscar…”, escrito em 1946 por Martin Niemöller, um pastor luterano que testemunhou as atrocidades do Terceiro Reich, descreve a indiferença individual e coletiva da população Alemã nos anos 30 do século passado perante a retórica do Ministério de Propaganda Nazi, que fomentou a humilhação e opressão de etnias minoritárias, pessoas portadoras de deficiências, instituições, cultura e ideais políticos contrários às do regime Nazi, no período imediatamente após a ascensão de Adolf Hitler ao poder, que eventualmente levariam às atrocidades do Holocausto.

Para Martin Niemöller, o texto serviu como uma penitência individual à sua passividade.

Para a Humanidade, adaptada mais tarde como uma prosa, ficou a lembrança do custo da inação na defesa dos mais vulneráveis e ilustra o perigo de nos mantermos calados, de nos mantermos indiferentes perante as injustiças contra os outros, contra os mais fracos, contra aqueles que estão mais despidos de poder, de dinheiro e de influência.

Quando é permitido a um grupo minoritário ser atacado, humilhado e perseguido, apenas abre o caminho para mais opressão para o resto da sociedade.

Lembra-nos que a liberdade e a dignidade humana são direitos universais; quando alguém é marginalizado, atenta contra o tecido da sociedade.

Mas o legado mais importante que Martin Niemöller e o seu poema nos deixa, é a responsabilidade moral: as consequências pessoais da sua inação.

“Quando vieram-me buscar, não havia mais ninguém para protestar.”

A própria segurança individual depende da defesa coletiva da liberdade e da igualdade para todos.

Cada grupo de pessoas perseguidas, serve como um aviso para os restantes de que a sua liberdade pode-se tornar rapidamente oprimida.

Ventos de Mudança: O Renascimento da Retórica Fascista em Portugal

Portugal está a assistir ao preocupante ressurgimento da retórica fascista, sobretudo através da crescente influência do partido de extrema-direita Chega. Este desenvolvimento reflete tendências mais amplas na Europa e nos EUA, onde os sentimentos anti-imigração, e subsequente violência policial justificada por André Ventura e o nacionalismo extremo ganham força.

A normalização da Propaganda

Nas recentes eleições parlamentares, o Chega conquistou 60 lugares na Assembleia da República, tornando-se o principal partido da oposição e ultrapassando partidos tradicionais como o Partido Socialista. Tendo como fundo um cenário político fragmentado, com uma campanha centrada em temas anti-imigração, uma postura populista, e uma forte propaganda digital nas redes sociais, o Chega ganhou força assente em slogans discriminatórios, xenófobos, racistas e com a permanente suspeita de corrupção no sistema político como: “os portugueses de bem”, “andam todos a gamar”, “a bandalheira da imigração”, “vai para a tua terra”, “a subsidiodependência”, “isto não é o Bangladesh”, “os ciganos têm de cumprir a lei”, “a castração química”, “Portugal precisa de três Salazares”, o uso recauchutado de “Deus, Pátria, Família e Trabalho”, humilhação da deputada invisual no parlamento com “pareces uma morta”, “ruídos de animais no parlamento”, entre outras imbecilidades.

Irónicamente, 25 dos 60 representantes eleitos estiveram envolvidos em controvérsias judiciais, levantando questões sobre a sua própria prestação de contas e futura capacidade governativa. No entanto, tal como os crentes do Terraplanismo, os seus eleitores seguem inabalados com a sua figura de estilo aguerrida disposta a discutir qualquer tema político como uma discussão de uma penalidade no último minuto de jogo e na contínua aposta numa linguagem de taberna e ideologia neo-fascista, como ficou comprovado com a associação do grupo extremista 1143 ao partido Chega.

Incidentes recentes, como o tratamento dado pela polícia aos imigrantes durante operações repressivas no Martim Moniz, sinalizam uma mudança do atual governo para uma governação mais autoritária, muito a reboque do ruído propagandista ensaiado pelo candidato André Ventura e do seu partido unipessoal Chega.

Isto espelha as táticas autoritárias dos regimes passados que procuravam suprimir a dissidência em nome da unidade nacional: repetir incessantemente linguagem que incute receio, que polariza, promovendo ódio e que procura justificar as falhas da economia e na sociedade num grupo restrito de pessoas.

Infelizmente, olhando para o panorama internacional, o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) tem estado na vanguarda das preocupações com as liberdades civis. Com a administração Trump, o ICE intensificou as suas operações com foco na fiscalização da imigração, o que tem vindo a gerar um amplo debate sobre as implicações para os direitos civis e sobre um regime cada vez mais autoritário, com um poder executivo cada vez mais centralizado numa pessoa, com a captura das instituições e uma arquitetura de sociedade cada vez mais alicerçada em ideologias que semeiam o medo, a intolerância e fascismo.

Uma campanha contra o Socialismo

A mais recente banalidade do candidato Ventura é de que estas presidenciais são uma luta contra o socialismo e encontrando no “o socialismo mata” o seu novo slogan, como se António José Seguro fosse um representante de Lenine ou Estaline que estivesse na iminência de construir umas gulags no Alentejo. Para uma pessoa minimamente atenta, António José Seguro representa o Socialismo Liberal do partido Socialista, sendo por isso bastante fácil conseguir cimentar a sua posição no eleitorado de centro.

Não é como tal surpreendente que inúmeras figuras políticas da direita e centro-direita do espetro político português tenham declarado publicamente o apoio ou a intenção de voto em António José Seguro, não apenas por haver alguma identificação política ou sócio-económica, por mais ténue que possa ser, mas porque entendem que o primeiro e mais fundamental valor que devemos procurar num candidato à presidência da república seja o compromisso inabalável com a democracia e o respeito pelas instituições, os órgãos de soberania e pelo poder investidos nestes: o poder executivo, legislativo e judicial.

Contrariamente, o candidato Ventura, defende a revisão dos poderes do Presidente da República arriscando a tornar o sistema político mais Presidencialista, muito semelhante ao Francês e ao Americano. É atualmente óbvio qual será a referência de governação para André Ventura.

Num momento em que assistimos ao ressurgimento de movimentos extremistas em várias democracias ocidentais, é essencial que o Presidente seja um defensor claro e inequívoco do Estado de Direito e das instituições democráticas.

O balão da imigração

O crescimento dos partidos populistas pela Europa e Estados Unidos da América assenta principalmente numa agenda contra a imigração e o Chega não é exceção, com as políticas anti-woke e teorias negacionistas das alterações climáticas os estandartes secundários destes partidos.

Quanto mais se esvaziar o balão da imigração e dos ataques às minorias da sociedade, menos energia estes partidos têm para espalhar o ódio, o medo e criar a ilusão de que vivemos num clima de permanente insegurança na sociedade.

No entanto, as suas políticas e reformas sócio-económicas para o país são praticamente inexistentes.

Relativamente à perceção de insegurança, é algo manifestamente falso!

Eu estudei desde os meus 9 anos no Porto e conheci em primeira mão a violência a que certos colegas e eu próprio passávamos nesse tempo. Atualmente, sempre que estou em Portugal visito o Porto com a minha família, muitas vezes usando os transportes públicos e o Porto está incomparavelmente seguro quando comparado com os anos 90 e a década de 2000. Hoje é possível andar na Ribeira, Miragaia, Baixa do Porto, Trindade, Bolhão, Matosinhos, Boavista a qualquer hora do dia, sem ter medo de ser assaltado, algo impensável nos anos 90.

Na verdade, a maior violência que existe em Portugal é a doméstica e a manifesta falta de segurança e tolerância nas imediações de um estádio de futebol. Infelizmente, aconselho a todos que estejam a ler este artigo de opinião que se instalem confortavelmente num sofá, porque André Ventura e o seu partido, não vêm isso como um problema nacional.

O problema é o cheiro a caril no arroz, demasiada canela no pastel de nata, o excesso de piri-piri no frango, o leite de coco no café, o café arabica demasiado torrado, para não falar em panquecas de mandioca, enquanto se tolera a picanha e o sushi. Ninguém parece reclamar dos Hambúrgueres, das salsichas Frankfurt, dos caracóis Franceses, ou das pizzas Italianas. Com esses partilhamos valores, cultura e identidade.

São Europeus, são cristãos, que é como quem diz: são brancos. O que não deixa de ser irónico, porque o candidato Ventura terá de garantir que nunca sai à rua com uma indumentária preta sem gravata, porque com a sua barba de uma semana ainda o podemos confundir com alguém de uma etnia cigana ou um cidadão proveniente do Hindustão, especialmente após as férias de Verão.

Por isso, as minhas únicas recomendações para o candidato Ventura seriam voltar a discutir penalidades na TV e limitar a exposição solar no Verão, não vá o diabo tecê-las!

Os benefícios da Imigração

É por isso essencial reconhecer os benefícios substanciais das diversas comunidades imigrantes, sem desvalorizar que a rápida gentrificação de uma comunidade trará sempre alguma fricção, mas o foco deve ser em políticas de inclusão, de integração, atendendo aos aspetos positivos e não procurar divisões a semear o ódio e o medo pelo outro.

Os imigrantes contribuem significativamente para a economia portuguesa, suprindo a escassez de mão-de-obra e sustentando o estado social, inclusivamente o Sistema Nacional de Saúde. Os trabalhadores estrangeiros representam uma parte vital da força de trabalho formal, contribuindo com 3.6 mil milhões de euros para a segurança social, enquanto recebem apenas 688 milhões de euros em prestações.

“A Comissão Europeia e o Orçamento do Estado para 2026 convergem no alerta: a diminuição do número de imigrantes que entram em Portugal comprometerá, a médio prazo, a sustentabilidade do sistema. Os cenários projetados indicam que, a partir de 2035, a redução da imigração agravará o desequilíbrio entre receitas e despesas da Segurança Social.”

As cidades mais bem sucedidas do hemisfério Ocidental são cidades cosmopolitas, assentes na multiculturalidade da sociedade e que depois se juntam para criar uma identidade única. Duas das cidades mais cosmopolitas que tive a felicidade de visitar foram Nova Iorque - com os seus bairros de Chinatown, KoreanTown, Little Italy/Pequena Itália -, e Londres com os bairros de Brick Lane, Notting Hill, Little Portugal, Chinatown.

Duas cidades que sofreram atentados terroristas por fundamentalistas islâmicos na década de 2000, são hoje governadas por Mayors muçulmanos: Sir Sadiq Khan em Londres e mais recentemente Zohran Mamdani em Nova-Iorque. Inclusivamente, em Londres há já alguns anos que se celebra o Ramadão e a celebração festiva Eid.

A cidade berço do Punk e do movimento anárquico nos anos 70, Iron Maiden, Led Zeppelin, The Police e os Queen, demonstra na atualidade porque continua a ser um exemplo de integração social.

A minha referência como presidente

A inclusão de Nelson Mandela neste artigo não é em vão. Ele é o meu ídolo político e um justo vencedor do Prémio Nobel da Paz. Ele representa as minhas convicções e os valores que defendo para uma sociedade justa, pluralista, tolerante e liberal.

Eu nasci na África do Sul durante o regime de segregação racial Apartheid onde despojaram a população nativa negra da sua dignidade, da sua liberdade, da sua cidadania e expondo-os a uma repressão física e sócio-económica violenta.

Durante os meus anos de adolescência, já em Portugal, as notícias que mais me marcaram foram as primeiras eleições presidenciais democráticas que resultaram na eleição de Nelson Mandela em 1994, a vitória no Mundial de Râguebi de 1995 pelos Springboks e a vitória dos Bafana Bafana no Campeonato Africano das Nações de 1996.

A procura da minha identidade e do meu lugar no mundo, como um convicto ateu e uma pessoa independente no espetro político, que hoje se revê no Liberalismo social, a única obra literária que mais posso aproximar de um “texto sagrado” para mim, é a autobiografia de Nelson Mandela “Um Longo Caminho para a Liberdade”.

Narra a vida de um ser humano que passou 27 anos na prisão, enfrentando um tratamento brutal, árduo e que ilustra os sacrifícios pessoais que afetaram a sua família em prol da luta pelo movimento.

O próprio Mandela reconheceu momentos de ambiguidade moral e conflito enquanto enfrentava críticas por algumas políticas durante a sua presidência, indicando que alcançar a liberdade não equivalia à perfeição na governação.

“A verdade é que ainda não somos livres; conquistamos apenas a liberdade de sermos livres, o direito de não sermos oprimidos. Não demos o passo final da nossa caminhada, mas sim o primeiro passo num caminho mais longo e ainda mais árduo. Pois ser livre não é apenas livrar-se das próprias correntes, mas viver de uma forma que respeite e promova a liberdade dos outros.

O verdadeiro teste da nossa devoção à liberdade está apenas a começar.”

Nelson Mandela quando tomou o poder, batizou a África do Sul como a Nação Arco-Íris, um termo cunhado por outro vencedor do Prémio Nobel da Paz, pelo Arcebispo Desmund Tutu para ilustrar as diferentes culturas, línguas e etnias da nova República.

A seleção Sul-Africana de Râguebi, apelidada de Springboks, era até então um símbolo da população branca, foi utilizada hábilmente pelo Governo de Nelson Mandela para criar uma ponte de paz e integração entre a comunidade branca e negra.

Após décadas de isolamento desportivo, para a história ficaria um dos momentos, quiçá o maior momento do desporto Oval, a consagração da África do Sul como campeã Mundial em 1995 contra os eternos rivais da Nova Zelândia, os All Blacks, com Nelson Mandela a subir ao relvado em Ellis Park vestindo o equipamento sul-africano para demonstrar o seu apoio incondicional aos Springboks, sob o slogan “Uma equipa. Uma nação.”.

Um slogan que ao contrário dos de André Ventura, procurou unir uma nação dividida pela cor da pele, pela língua, pela cultura e pelo desporto.

One team. One Nation.



O Papel do Presidente da República

Como tal, é com esta bagagem emocional que irei viajar para Manchester, para votar não apenas numa figura protocolar, mas para eleger alguém que seja o garante da Constituição, o moderador das instituições democráticas e, sobretudo, um símbolo de unidade nacional.

Num contexto (nacional e internacional) de crescente polarização política e social, o Presidente deve representar todos os portugueses e cidadãos imigrantes que impulsionam a economia Portuguesa e que identificam Portugal como a sua casa, independentemente das suas etnias e convicções políticas, religiosas ou ideológicas.

Por Martin Niemöller, por Nelson Mandela, pelos Capitães de Abril, pela defesa dos valores e princípios de liberdade, democracia e dignidade humana, no dia 8 de Fevereiro, o meu voto será no António José Seguro.

António José Seguro
António José Seguro


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